quarta-feira, 3 de abril de 2013

O negócio é bicicleta

Cada vez mais importantes como meio de transporte, as bikes também começam a transformar a vida de quem se dedica a criar pequenos empreendimentos que rolam em duas rodas



"É um caminho sem volta, só tende a crescer. Copenhague é aqui", empolga-se Priscila Moreno Santiago, 30 anos. Seu "aqui" é a cidade de São Paulo, onde ela mantém um negócio que só existe devido ao crescimento da bicicleta na capital paulista e no Brasil. Copenhague é a meca dinamarquesa das bicicletas, cidade onde 37% da população vai para o trabalho pedalando, em vias pensadas especialmente para as duas rodas. 

Números mostram que a frase de Priscila tem fundamento. A Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares) diz que a produção de bicicletas aumentou em 10% entre julho de 2011 e julho de 2012. No mesmo período, a associação contabilizou 30% a mais nas vendas. Hoje o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de bicicletas e o quinto maior consumidor, com 4% do mercado mundial em ambos os casos. Essa escalada indica que há um mercado a ser explorado. 

A vida simples conheceu três iniciativas que apostam nisso. Cada uma se dedica a uma área diferente do mercado das duas rodas, mas todas têm muito em comum. Primeiro, há a paixão de seus donos pela bicicleta. Todos usam as duas rodas como meio de transporte principal; além disso, as novas empresas surgiram como projetos pessoais. Hoje, todos começam a achar um caminho entre os carros e os negócios tradicionais para conseguir se mover adiante. 

A otimista Priscila é um deles. "Meu negócio começou quando eu me separei e fiquei sem dinheiro até para andar de ônibus. Emprestei a bicicleta de uma amiga para economizar mesmo, entrei no universo da bike por pura necessidade", conta. Do que se tornou hábito, veio o ofício. "Pedalando, percebi que precisava carregar minhas coisas, um monte de coisa, com conforto e segurança. Minha amiga comprou um alforje (bolsa que pode ser presa a motocicletas e bicicletas) importado, pagou uma fortuna, e era enorme, desproporcional para o nosso tamanho, difícil de carregar - e impermeável uma ova. Olhei e falei: eu faço melhor." 

Em 2010, começou a confeccionar e testar as peças. Ela própria observava se as bolsas eram práticas - e se aguentavam as chuvas. Assim nasceu a Alforjaria, negócio que hoje a sustenta. Os pedidos não param de chegar a sua oficina, que começou com máquinas de costura caseiras e hoje conta com uma industrial. A demanda é grande, a ponto de ela precisar de mais máquinas e de contratar uma pessoa para ajudá-la. 

MAIS VAGAS 
Outra empresa também já não está conseguindo dar conta do número de pedidos. É a Ciclomídia, de Edu Grigoletto, 39 anos, formado em direito e marketing. "Há dois meses, eu prospectava clientes. Agora passei a ser procurado. Hoje recebo e-mails, ligações, pedidos por redes sociais", diz. Desde abril de 2011, a Ciclomídia faz consultoria para empresas que querem criar instalações para os ciclistas. Por enquanto, o foco tem sido no estacionamento das bicicletas. A empresa confecciona paraciclos, estruturas onde se apoia e prende a bicicleta, e oferece o serviço de "bike vallet", onde se pode deixar o veículo na entrada de grandes eventos, como feiras e shows. 

Para Edu, as pedaladas se fizeram necessárias quando ele e a esposa já não podiam mais compartilhar o carro. Pensando nos custos, ele decidiu ir ao trabalho de bicicleta. "Eu era aquele cara que tinha fobia da cidade. A bicicleta me aproximou dos prédios, das pessoas." 

Insatisfeito com o trabalho numa empresa de marketing esportivo, desejava uma mudança ainda mais radical. "Todo mundo tem conta para pagar, mas isso não significa que você não possa fazer uma coisa que beneficie alguém, a cidade. Comecei a criar todas essas premissas para minha empresa." 

Chegar à final de uma competição de ideias inovadoras foi o empurrão que faltava para fazer o sonho rolar. Saiu do emprego e começou a montar o negócio. Ele faz questão de explicar que escolhe criteriosamente seus clientes. Para contar com a Ciclomídia, é necessário estar envolvido na "questão maior, que é promover a mobilidade urbana", diz. 

Esse é justamente o público-alvo da Ciclo Vila, junção de café, loja, bicicletaria, loja de roupas e serviço de bike courier. Um dos sócios, Leandro Valverdes, 34, que deixou de lado a profissão de jornalista para se dedicar à bicicleta, explica que tudo nasceu em 2009 com uma loja online, a Ciclo Urbano, que vende acessórios para quem depende desse meio de transporte. "Por exemplo, para-lama. Também não é fácil encontrar bagageiros ou mesmo bicicletas com uma postura mais adequada para a cidade." 

Depois de algum tempo na internet, ele e o sócio sentiram a necessidade de ter um espaço físico. Para economizar no aluguel, juntaram-se a outros pequenos empreendedores da área e fundaram o espaço, que fica numa pequena vila perto das avenidas Luís Carlos Berrini e Rebouças, uma das regiões mais movimentadas de São Paulo. 

Além de comprar peças e bikes, dá para tomar café e comer bolo, fazer consertos e até bater um papo com quem estiver por ali. Durante a semana, a frequência é de pessoas que estão indo ao trabalho pedalando. No domingo, a Ciclofaixa de Lazer lota o terraço da Ciclo Vila de famílias e entusiastas, uma surpresa: "O público recreativo, de lazer, a gente não estava pensando em atender tanto. Talvez a gente tenha até subestimado. A gente queria o cara que usasse no dia útil, mas esse público ainda é o nicho". Mas ainda há potencial para crescimento: Valverdes vê um crescimento estável no número de ciclistas. 

Todas essas empresas já conseguem sobreviver e mostram que, mesmo que os ciclistas ainda tenham de se espremer entre os carros, cada vez mais há espaço para criar novos negócios e, quem sabe, chamar a atenção de quem ainda não se inteirou da profecia de Priscila. Talvez São Paulo nunca chegue a ser Copenhague, mas com certeza há espaço para melhorar.


TURISMO
Uma empresa em Bonito, Mato Grosso do Sul, viu a oportunidade de aliar a bicicleta com o turismo praticado na região. Lobo Guará Bike Adventure foi o nome adotado pelo empresário Márcio Lima, um apaixonado pelo esporte. Por meio das magrelas, é possível que o turista conheça as belezas naturais da região, provocando mínimos impactos por onde passa.

Márcio Lima começou a pedalar em 1992 e desde então não parou mais. A ideia de aliar sua paixão com a geração de renda surgiu durante uma das inúmeras viagens cicloturísticas que fez em regiões do Estado. Quando visitou pela primeira vez o zoológico a céu aberto que é o Pantanal, teve a certeza que não há transporte melhor do que uma bicicleta para conhecê-lo. Pedalar sem provocar danos, nem poluição, ficar próximo à fauna e flora do local, uma ótima opção para o turismo praticado em áreas naturais.

Numa dessas viagens veio parar em Bonito. Isso foi em 1997. Uma cidade pequena, mas muito acolhedora. Achou tudo maravilhoso, de pessoas a belezas naturais. Não tinha dúvidas que era nesse lugar que gostaria de fincar suas raízes. Propiciar a um público, que na grande maioria, não tem contato com uma bike, uma experiência única.

O potencial do local e o nome de sua empreitada ele já sabia. Inclusive, a inspiração para o nome veio através de suas pedaladas pelo Cerrado, onde avistou vários exemplares de Lobo Guará, vivos e mortos, atropelados nas rodovias. Observando este animal sempre solitário, cabisbaixo, de pernas longas e pretas, além de tão soberano, viu uma relação muito forte com o cicloturista, que muitas vezes viaja sozinho pelas estradas de asfalto ou de terra em busca de sua liberdade de espírito. Assim, o nome de seu atrativo não poderia ser outro: Lobo Guará Bike Adventure, uma homenagem a um belo animal que está desaparecendo e não pode ser esquecido.

A Lobo Guará Bike Adventure foi criada oficialmente em 2008 e desde então vem conquistando “amigos” das mais variadas idades. O passeio proporciona ainda, que o turista deixe uma lembrança de sua passagem na região, permitindo que seja plantada uma árvore nativa em área de mata ciliar dos rios visitados.

Com informações: Diogo Antônio Rodriguez - Vida Simples / Edição Verde - 12/2012 e site Lobo Guará Bike Adventure (www.loboguarabikeadventure.com.br)


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